Salvador Sobral tem um disco pronto para sair esta primavera, desta vez em duo com a cantora Sílvia Pérez Cruz. O disco inclui canções de vários autores convidados e dos próprios cantores e tem saída programada para maio.
Aqui fica a primeira canção que ouvi. E é daquelas que dá arrepios. Ora ouçam:
SÍLVIA & SALVADOR - Ben poca cosa tens (en directo)
Muitos de vocês sabem que evito comprar música naquela cadeia de lojas que acabou com as pequenas discotecas, que trata mal as pequenas editoras e que esconde o trabalho dos músicos individuais que lhes deixam o trabalho à consignação. Ultimamente tenho-me safado melhor. Eu explico.
Há, de facto, cada vez menos CDs à venda e mesmo as novas lojas de discos estão cheias de vinil, com uma pequena secção de CDs. Ainda não percebi muito bem a dimensão ecológica do regresso do vinil, derivado do petróleo, não tenho a certeza da pegada de carbono de um CD, mas sei que os meus ouvidos não suportam o som de "batata frita" gerado por meses ou anos de passagens da agulha nas estrias e que o tamanho dos CDs é bem mais fácil de arrumar numa estante, que o posso passar para uma pen-drive e ouvi-lo as vezes que quiser sem danificar o original, ou mesmo andar com ele no carro sem temer roubos ou intempéries.
É verdade. Já ninguém compra CDs. Ou quase ninguém. A música está, na sua grande maioria, disponível em "streaming". Com uma pequena quota, temos tudo disponível online sem termos que comprar a música; para quem quer ficar com a música em formato digital, não faltam lojas online, algumas disponibilizadas pelos próprios artistas ou pelas produtoras que lhes gerem as carreiras e, para os "verdadeiros melómanos", temos o glorioso regresso do vinil.
Nos últimos anos não tenho comprado tanta música como comprava, por razões várias, que não interessam agora para aqui, mas descobri que posso comprar a música diretamente aos músicos ou a quem lhes gere as carreiras, reduzindo assim a quantidade de intermediários e aumentando significativamente o que os artistas ganham em cada disco vendido.
Sim, em certos casos sou obrigado a ouvir a música nas plataformas de streaming, que pagam uma miséria aos artistas por cada audição. Estou até a pensar começar a fazer crítica aqui no blogue a discos que ouço nessas plataformas. Posso não poder comprá-los, mas posso dar a conhecer a música de maneira a que outros a comprem aos artistas. Recebo alguns de oferta, de amigos, mas o que eu gosto mesmo é de escrever a um músico e dizer-lhe "Olá, quero comprar o teu disco!" De maneira mais direta ou menos direta, tenho aqui vários, alguns que já comentei, outros que esperam comentário. Hoje chegou mais um: uma obra fantástica do José Peixoto, que vai começar a tocar em casa e no carro e do qual vos falarei nos próximos tempos.
Obrigado, José Peixoto, pela atenção e pela rapidez, mas principalmente pela boa música.
Saiu no passado dia 20 de Outubro o novo disco dos Trabalhadores do Comércio, de seu nome "Objecto" (ou @bjecto?). Para não quebrar a tradição, já o tenho por aqui (desta vez paguei-o) e vou fazer-vos uma espécie de visita guiada pelas várias canções, seguida da minha opinião sobre o trabalho em geral. Se por acaso despertar a curiosidade a algum dos poucos leitores deste blogue e isso resultar na compra de mais alguns exemplares, ainda bem para a banda. Eu para mim não quero nada.
O disco abre com uma versão de "Cantar de Emigração" forte, de acentuado sabor "floydiano". Para quem, como eu, ouviu esta canção até à exaustão, cantada pelo Adriano Correia de Oliveira, é uma transição estranha do lamento para a raiva e a constatação de que muitas coisas mudaram pouco e que a falta de paciência e a saturação da espera trazem consigo maiores perigos. Mas o sentimento em si justifica-se, ou não fossem os próprios Trabalhadores do Comércio vítimas desse fluxo migratório.
"Puresta cidade" é uma espécie de Blues/Reggae escrito e cantado pelo Miguel Cerqueira, que aqui entrega o baixo ao "puto". É assim como se o próprio Chico Fininho se encontrasse com o Rui Veloso, o Carlos Tê e os Jáfumega para lhes contar como é a bida na ribeira cu'a merda n'álgibeira.
"Num momento fugaz" é a canção para um próximo episódio da saga James Bond, em que os vilões são todos os que lucram com a morte (políticos? Líderes religiosos?) e o nome do herói é "Medicis, Joe Medicis". Diana Basto é a voz dramática, expressiva como Bassey, potente como Turner.
Micas Bidênte é Minnie The Moocher à Trabs, na linha de outras bersões de discos anteriores. O humor a dar um ar de sua graça, como convém num disco dos Trabalhadores do Comércio.
"Os Bampirus" é outra bersom, ainda mais surpreendente, como só poderia ser para esta canção do Zeca. Será um riff à Purple? Teclas à Winwood? Progressão à Beatles? Que interessa? É uma rocalhada como poucas bandas conseguem fazer em Portugal por estes dias. Bálhom-nos os Trabalhadores.
"O Parque da Monsanto" é uma sequela de "Guardacielos" do álbum "Surge", do Sérgio Castro, esta em português e cantada pela Daniela Costa e coro. Muitas vezes olhado como apenas uma teoria da conspiração, não era má ideia a Comunicação Social honesta, se ainda existe, pegar no assunto e esclarecer de vez a dúvida: vapor de água, fumo de combustível de avião ou químicos para tentar controlar o clima? Estamos ou não a ser envenenados sem saber?
"Na Desportiba" é a canção que faz a ligação aos Trabalhadores do Comércio dos anos 80. Cumédia de Custumes em rifes rápidos e batida certa. Tudo tocado cómilfô!
"Meio mundo, meio mudo", sobre as narrativas e efeitos da comunicação durante a pandemia e seus efeitos psico-sociais é, para mim, a canção menos conseguida do disco. Gosto das partes mais despidas de instrumentação, mas depois há muita carga em cima das vozes no refrão. Muita música muito bem tocada, mas um pouco demais para o meu gosto.
"Blus do Compositor" é uma canção de Chico Gouveia escrita em finais dos anos 60, que esteve para ser parte de um disco que nunca aconteceu. Na altura teria algumas afinidades com o som do Quarteto 1111, que seria a banda do momento. Aqui aparece transformada numa espécie de Trad/Blues, coisa hoje em dia só possível de incluir num disco de Rock, se esse disco for dos Trabalhadores do Comércio.
"Bolero da Raiba nu Papel" é a história do bizinho que já ne molhe plus la farture dan sa tasse chaude, lamento carinhosamente embrulhado num inbólucro de Vozes da Rádio. Bonito, apesar do drama.
Como convém num disco que se preze, este também tem uma bónustraque. Chama-se "O Blues é Sufrimento" e é resultado dum improviso de fim de noite e de alguns contratempos sanitários de cariz mais ou menos doloroso. Delicioso. Não os contratempos, mas o Blu propriamente dito.
Que mais dizer de mais um álbum dos Trabalhadores do Comércio? Que são uma das bandas mais competentes do país em termos de som de conjunto, já o disse várias vezes e isso continua a ser verdade. Sabemos há muito tempo que os Trabalhadores do Comércio, não perdendo o seu corrosivo sentido de humor, são muito mais do que a banda que fez o "Chamem a Pulíssia". Fazem versões como ninguém, tocam todos os géneros músicais sem perder a coesão e ganharam, nos últimos três discos, pelo menos, uma outra dimensão interventiva, talvez mais séria, mas não menos acutilante. Este disco aproveita como nunca antes, as capacidades vocais de Diana Basto e Daniela Costa e as qualidades dos seus nove membros, mais os convidados. Não há ali ninguém que esteja a mais (provavelmente, nem a menos).
Já noutras alturas disse isto e poucos acreditaram, mas vão ouvir isto, que é um grande disco. Ah, e funciona tão bem no rádio do carro!
Sairam dois vídeos que ilustram dois dos temas do álbum:
Saiu finalmente a tão profusamente anunciada "última canção dos Beatles". Chama-se "Now and Then" e faz parte de um conjunto de gravações caseiras feitas por John Lennon, que Yoko Ono entregou aos outros Beatles em 1994 e que incluía também as canções "Free as a Bird" e "Real Love", tocadas e arranjadas para serem usadas no projecto "Beatles Anthology", que consistiu na edição de um documentário, três coletâneas e um livro, em 1995.
Se "Free as a Bird" e "Real Love" foram incluídas nas coletâneas aproveitando as gravações da voz de John Lennon, já com "Now and Then" isso não foi possível pois não havia, na altura, a tecnologia necessária para separar a voz de Lennon do piano presente na gravação. Em 2022, graças a um software desenvolvido pela equipa do realizador Peter Jackson, foi finalmente possível separar a voz de John do piano e usá-la isoladammente. Usando este novo recurso, recuperaram-se as gravações já feitas em 1995 pelos outros três Beatles e acrescentaram-se novas partes, como a orquestra e um solo de Paul McCarteney feito "à George", pois deste só havia partes de guitarra ritmo e outros pequenos apontamentos. E ontem, depois de uma grande campanha de antecipação e de construção de expectativas, a coisa saiu finalmente e... meh.
Confesso que, conhecendo "Free as a Bird" e "Real Love", as minhas expectativas eram baixas. E, de certo modo, confirmaram-se. "Now and Then" é mais uma canção que não foi escolhida para figurar no último álbum de John & Yoko "Double Fantasy", nem sequer foi gravada em estúdio nas sessões de 1980, que permitiram a edição póstuma de "Milk and Honey". "Now and Then" não soa de todo a Beatles, mas sim a John Lennon de 1980, mesmo com as contribuições instrumentais dos outros três, os arranjos orquestrais e todo o tratamento e produção investidos na canção. Deve dizer-se, no entanto, que das três canções fornecidas por Ono, esta é claramente a melhor e mais bem acabada, com uma melodia bem construída (terei ouvido ali um cheirinho de Clive Langer/Elvis Costello/Robert Wyatt?) e a única que poderia ter entrado nos álbuns que mencionei acima, não fossem eles ocupados com metade das canções feitas por Yoko Ono, em alguns casos, muito mazinhas.
E pronto. A montanha voltou a parir um ratinho e assim acaba a carreira dos Beatles, até que lhe inventem um novo fim.
Quanto às acusações a Ono e Paul e Ringo de editarem a canção só para faturar à conta dos outros, que já li por aí, não dou para esse peditório. Para os dois Beatles restantes acabou por ser um pretexto para se voltarem a juntar e fazer alguma coisa juntos, lembrando os velhos tempos. Já Yoko... acredito que pouco mais terá feito do que autorizar. Já Sean Lennon mergulhou de cabeça na produção. E quem é que o pode censurar por isso?
O André toca banjo há cerca de 20 anos. Eu conheço o André há oito, por via das "jam sessions" (sessões de improviso) que organiza com o objetivo de divulgar o género musical e de tocar com outras pessoas, para lá dos elementos da sua banda, Stonebones & Bad Spaghetti (SB&BS), provavelmente a única banda Bluegrass em Portugal. É certo que têm havido algumas incursões no género desde o fim dos anos setenta e inícios de oitenta, protagonizadas por músicos como Jorge Palma, Mário Ribeiro, King Fishers Band ou, mais recentemente, Anaquim, mas sempre de passagem, nunca assumido como o género principal dos grupos ou artistas. Bandas assumidas de Bluegrass em Portugal, só conheço os SB&BS.
Pois então, se o André tem uma banda de Bluegrass em Portugal, porquê um disco a solo? Bom, porque o André anda há 20 anos a percorrer as jam sessions dos vários festivais Bluegrass que se realizam na Europa e nos Estados Unidos e tem colecionado amigos por esse mundo fora, que o têm apoiado e encorajado a continuar a fazer coisas dentro do Bluegrass, todos muito bons músicos e com quem o André tem muito prazer em tocar. Por essas razões e por se ter visto confrontado com uma condição física que tem vindo a prejudicar o seu domínio do banjo, decidiu o André editar a solo um disco instrumental de standards bluegrass e temas seus, tocado por ele e por todos os seus amigos espalhados pelo mundo.
Ora, apesar de o Bluegrass ser um género musical que assenta muito na interação entre os músicos durante a execução, um pouco como no Jazz, a tarefa de gravar toda aquela gente junta em estúdio apresentou-se como impossível em termos logísticos, considerando a falta de meios financeiros com que o projeto se confrontava. Optou-se pela solução de cada um dos músicos gravar a sua parte e enviar para uma mistura final. Quando ouvi esta explicação, torci o nariz e pensei: "Bluegrass à distância? Humm...", até que me chegaram os primeiros sons do single "Beyond The Tagus River" (se ainda não repararam, quer dizer Alentejo). E não é que, não só a interação entre instrumentos resulta, como ainda por cima a mistura está muito bem feita? Não vou dizer que tudo encaixa como se fosse gravado "as pickers do", mas o resultado final está muito bom.
Apresento-vos assim "Beyond The Tagus River" o primeiro álbum de Bluegrass instrumental de um músico de Bluegrass português, tocado por músicos de todo o mundo, incluindo Portugal. A música é muito boa, o trabalho está bem feito e só falta ser ouvido por toda a gente. Tem passado em várias rádios online pelo mundo fora e agora falta ser ouvido nas rádios nacionais, coisa que, sabemos todos, é um bocadinho complicado de conseguir. Mas não sei. O André nunca desiste. Estejam por isso atentos e, se quiserem comprar o disquinho, sai amanhã. Podem comprá-lo contactando o André Dal no Facebook e Instagram. Ficam aí os links e, aqui em baixo, o single de apresentação, que dá o nome ao álbum.
Começa aqui mais uma rúbrica neste blogue. Posso não ser das pessoas que vocês conhecem com a maior coleção de discos mas acho que, com mais de 800, entre os vários formatos, consigo ter algumas coisas para contar sobre o modo como alguns deles cá vieram parar. Nem todas terão piada. A maior parte são curiosidades que só interessam a melomaníacos como eu, mas vamos ver o que sai daqui.
A primeira história (e muitas das seguintes também) fala da dificuldade em se conseguir encontrar certos discos para comprar. Se era difícil para mim, antes de começar a trabalhar, conseguir juntar dinheiro para comprar música, muitas vezes me aconteceu ter dinheiro, andar à procura de um disco específico e ele não existir em lado nenhum. Com os estrangeiros ainda se conseguia, pedindo a alguém que fosse ao estrangeiro ou mandando vir de fora em algumas lojas de discos que tinham essa possibilidade, sendo que esta última opção fazia com que os preços subissem ao ponto de ter de estar um ano sem comprar mais nenhum. Quanto aos portugueses... se não havia, não havia. O contato direto com as editoras estava praticamente vedado ao cliente final e os donos das lojas de discos só nos sabiam responder "no armazém não há".
Estava-se no ano de 1981. Eu tinha comprado o "Chão Nosso", primeiro álbum do Grupo Trovante, alguns anos antes e nesse ano saiu o excelente e muito aclamado "Baile no Bosque", que fez do grupo um sucesso de vendas e que toda a gente passou a ter em casa. Eu sabia que, entre 1976 e 1981, o Trovante tinha editado alguns singles e descobri que havia também um álbum, chamado "Em Nome da Vida". Comecei então a procurá-lo pelas melhores lojas de discos (então chamadas de discotecas) que conhecia. Mas nada. Ninguém conhecia o disco e quem conhecia nunca tinha tido à venda, "não havia no armazém" e nem sequer sabiam qual era a editora. Dei mais umas voltas, fui a discotecas mais pequenas e acabei por descobrir, numa papelaria da CDL (editora ligada ao Partido Comunista Português), que o disco existia de facto, tinha sido editado pela própria CDL, através de uma pequena editora de música que lhes pertencia (fiquei depois a saber que se chamava "Mundo Novo"), mas que não, não iam ter à venda porque já tinha saído há três anos e de certeza que estava esgotado.
Desanimado voltei a casa para dizer ao grupo com quem costumava juntar-me para ouvir música que tinha ido procurar o disco, mas que a busca tinha terminado porque o disco deveria estar esgotado e dificilmente seria reeditado.
Estava lá nesse dia uma outra amiga nossa que tinha começado recentemente a frequentar o grupo, por razões que não interessam para esta história, e que disse de repente: "Eu conheço esse disco! A minha mãe trabalha no Comité Central do PCP e eu já lá vi esse disco à venda. Se quiseres, compro e trago-to!". Logo ali se combinou que ela faria uma visita à mãe e traria o disco para quem o quisesse comprar. No fim, arranjaram-se dois, creio eu. Um é o que aqui tenho, o outro não sei quem ficou com ele.
Os pormenores mais intrincados da estória escapam-me um pouco mas, no geral, estou certo de que foi mais ou menos assim que aconteceu.
Fica aqui uma das canções do disco, com o agradecimento ao Aristides Duarte, que entre artigos, blogues, livros e programas de rádio já fez mais pela música portuguesa do que eu poderei fazer. Este vídeo foi retirado do seu canal de YouTube, o qual aconselho a todos que subscrevam, se ainda não o fizeram.
Hoje, em vez de uma banda, temos mais um trabalho a solo. E de um músico que nem é conhecido por fazer parte do chamado rock português. Carlos Alberto Vidal poderá ser um nome desconhecido para muita gente mas dificilmente alguém nunca terá ouvido falar do Avô Cantigas. A carreira de Carlos Alberto Vidal atravessa vários estilos e por entre músicas de cariz mais "popular" como "Filhas da Tia Anica" e a "Cantiga do Chouriço" e outras de estilo "baladeiro", aparece, em 1976, a obra "Changri-Lá", com evidentes referências ao movimento Hippie na sua vertente mais ligada à India, que podemos encontrar também nos anos seguintes, por exemplo nos dois primeiros álbuns dos Tantra. Shangri-La é uma espécie de paraíso perdido, inventado pelo escritor James Hilton, abordando a temática da fuga para o paraíso, tema a que José Cid voltará, dois anos mais tarde, em "10000 Anos depois entre Vénus e Marte".
Quando interrogado sobre o significado de a sua Shangri-La se escrever com C e não com S, Carlos Alberto Vidal responde com boa disposição nesta entrevista a Paulo André Cecílio: «Porque errámos... Ninguém reparou que “Shangri-lá” se escreve com “s” antes da capa ir para a fábrica».
De qualquer modo, "Changri-Lá" é um bom conjunto de canções, compostas pelo próprio (exceto uma, de Nuno Pimentel) e arranjadas pelo conjunto de músicos em estúdio, entre os quais se encontrava gente como o baterista Necas (Ananga Ranga e Lena de Água e a Banda Atlândida) ou Rui Cardoso (Sindicato).
O álbum foi reeditado em vinil, em 2016, pela editora Babilónia, numa edição limitada a 300 exemplares. Desconheço se ainda existem alguns em stock ou mesmo se a editora ainda está em funcionamento.
Os Petrus Castrus são uma banda que, de uma maneira ou de outra, sempre foi aparecendo no caminho das minhas deambulações musicais mas que, por algum motivo estranho, nunca figurou na minha estante de discos. Cheguei a comprar o Ascensão e Queda na CDL, em princípios dos anos 80, mas fui obrigado a devolvê-lo porque vinha riscado e, não havendo outro exemplar, acabei por comprar outro disco (talvez o Live dos Fleetwood Mac, já não me lembro bem).
A banda Petrus Castrus formou-se em 1971 e era composta por Pedro Castro (ex-Sharks), pelo seu irmão José Castro, pelo teclista Rui Reis (ex-Plutónicos e futuro Quarteto 1111) e por Júlio Pereira (sim, o do cavaquinho) e João Seixas (ambos ex-Playboys) e até 1980, ano em que interrompeu a sua atividade, gravou, salvo erro, um single, dois EPs e dois LPs em quatro contratos com três editoras. Acresce a isto um concerto a abarrotar no Teatro Aberto em 1978, ainda antes de os Tantra esgotarem o Coliseu. Para uma época que muitos dizem anterior à existência de Rock em Portugal, parece-me que é obra.
A história dos Petrus Castrus tem vários episódios, alguns de frustração, outros de conquista; relações com pessoas ou entidades que não souberam ou não quiseram entender o projeto musical da banda e outras pessoas com a abertura e o arrojo suficientes para apostar nesta musica "estranha" com poemas sarcásticos e contestatários. O álbum "Mestre", de 1972 musicava poemas de gente como Ary dos Santos, Alexandre O'Neill, Sophia de Mello Breyner, Bocage ou Alberto Caeiro, entre outros. O álbum "Ascenção e Queda" foi um daqueles muitos partos difíceis conhecidos na música nacional. Foi apresentado à editora em 1974 e só seria editado em 1978 numa editora concorrente, tendo como produtor o músico Nuno Rodrigues, da Banda do Casaco.
Ora dizia eu que, por uma ou outra razão, os Petrus Castrus nunca tinham figurado na minha estante de discos. Até hoje. E isto porque, pelo meio das minhas pesquisas, fui dar ao site de uma loja online, que em tempos teve porta aberta em Sintra e que eu julgava desaparecida. A loja chama-se Loja do Arco e apresentava em destaque, logo na entrada, a reedição em vinil e CD do álbum "Mestre", sendo que a versão em CD era dupla e trazia o álbum de 2007, para mim até então desconhecido, "Morte Anunciada de um Taxista Obeso". Pensei: "É desta!". Encomendei no passado sábado, chegou hoje. Simples e rápido. Ninguém me encomendou a publicidade, mas sempre vos digo que a Loja do Arco tem um belo catálogo de música portuguesa. Se estiverem interessados e, como eu, não gostarem de comprar música naquela loja francesa que rebentou com as melhores lojas de discos do país, é de aproveitar.
Conclusão: já estou a ganhar com esta decisão de tentar saber um pouco mais sobre o que aconteceu na música portuguesa anterior ao "Ar de Rock". Já viram a minha sorte?
Como exemplo, deixo-vos aqui Tiahuanaco, faixa nº 9 do "Mestre".
Mark O'Connor é um dos mais conhecidos violinistas de Bluegrass. Para além disso é professor de violino e criador de um método de ensino que se opõe ao tradicional método Suzuki (mas isso é uma história para outro dia). O que importa para o texto de hoje é o facto de, apesar de nos últimos mais de 20 anos ser conhecido como um dos grandes do violino, por alturas de 1979 Mark O'Connor (com 16 anos de idade) ser conhecido principalmente pelas suas habilidades como guitarrista. Markology é o primeiro álbum publicado em nome próprio por Mark O'Connor, no qual só toca guitarra. E como! Para além disso, acompanhado por outros nomes grandes do mesmo instrumento, como Tony Rice e Dan Crary, e outras estrelas do género como Sam Bush e David Grisman em bandolim e Bill Amatneek no baixo.
Mark O´Connor deixou de tocar guitarra e bandolim no fim dos anos 90, devido a problemas de bursite e tendinite no braço direito. Em 2016 voltou a pegar na guitarra para descobrir que ainda é tão bom guitarrista como quando parou. Fico à espera do próximo álbum de guitarra.
Este é um dos álbuns que me faltam ali na estante, apenas porque nunca o encontrei à venda. Se o virem por aí, tragam-no (desde que seja a um preço que eu possa pagar, claro).
Quando começaram a surgir os primeiros rumores acerca do projeto de disco a solo do Sérgio Castro, tentei imaginar o tipo de álbum que poderia ser e, pesando o percurso que conhecia, achei que seria um disco bastante diferente do trabalho nos Trabalhadores do Comércio. Pensei que poderia ser um álbum introspetivo, basicamente acústico com uma ou outra colaboração, ou então uma coisa mais à antiga (parece que agora se diz old school), ancorada no funk-rock dos Arte & Ofício, mas mais chegada ao universo algo esquizofrénico de um Frank Zappa. Não me saiu nem uma coisa nem outra, ou se calhar saiu-me todas juntas. Onde acertei completamente ao lado foi na língua. Pensei português, saiu inglês. Toma! É para não te pores a querer abrir a encomenda antes da chegada do carteiro.
Surge, de Sérgio Castro (no caso, Ser Castro) é notoriamente um disco solitário e introspetivo na sua conceção, mas coletivo e virado para fora no que respeita à concretização, tanto em termos de produção, de execução e até de expressão gráfica e artística (quem mais daria liberdade aos amigos para ilustrar as canções com trabalhos originais e lhes daria o destaque de um livro de exemplar qualidade gráfica em formato de disco vinil?). De facto, o livro é a primeira grande surpresa deste trabalho, diria, multidisciplinar. Cada canção tem direito a uma ilustração original, um texto explicativo em duas línguas e uma ficha técnica impressos com uma qualidade invulgar. O CD aparece na última folha, num singelo envelope plástico, como uma adenda à obra. Pegamos nele, pomo-lo a tocar (ainda têm leitores de CD? eu tenho) e rapidamente somos lembrados do que afinal se trata aqui: música! E da boa!
Em Surge, Ser Castro parece ter percebido que, com tantos anos de música em projetos coletivos e alheios, se tinha esquecido de revelar mais um pouco de si. E o que faz, neste primeiro disco a solo (sim, penso que mais se seguem), é uma rápida retrospetiva da “parte de trás”, digamos assim, dos seus 50 anos de música. O autor vai a cada uma das suas “gavetas” de vida e revela um pouco de cada uma, sempre com a ajuda dos amigos que a cada uma pertencem (ou lamentando a sua falta, mas nunca os esquecendo). O resultado é um álbum necessariamente heterogéneo em termos estilísticos, mas de grande qualidade, primorosamente tocado e cuidadosamente produzido. Todas as canções são muito diferentes umas das outras, sim, mas nunca há a sensação de se perder o fio à meada, mesmo não seguindo o alinhamento uma linha temporal, ou se calhar mesmo por não a seguir.
Surge poderia ser um álbum biográfico, mas acaba por se tornar um disco sobre momentos, amizade, saudade, agradecimento e reconhecimento. Mais do que tentar fechar capítulos, parece mais um assumir do lugar das coisas para seguir em frente. Assumem-se perdas, lembra-se quem já não está e promove-se o encontro com os amigos que se foi fazendo pela vida fora, como queremos fazer todos a certa altura das nossas vidas. No caso, nem todos os que estavam previstos conseguiram chegar a participar, o que deixa espaço em aberto para continuar a função em obras futuras. Se os discos a solo do Sérgio Castro se alimentam de amizades, pois que venham mais amigos, que nós cá os saberemos receber.
No fim, afinal o que podemos ouvir em Surge? Como se consegue enfiar cinco décadas num só álbum e de que constam esses 50 anos em termos estritamente musicais? Pois, é difícil, impossível até, inserir este disco num único género (é sempre, com o Sérgio Castro) mas, no meu caso, consigo ouvir aqui um conjunto de influências que não é certamente de lamentar, a saber: The Beatles, Moody Blues, Go Graal Blues Band (a original), Bowie, Scott Walker, Bob Seger, JJ Cale, Peter Green, Allman Brothers, Billy Joel, Zappa, Queen… e sim, Arte & Ofício e Sérgio Castro. Trabalhadores? Nem por isso, mas para isso temos aí os respetivos discos, certo?
Grandes momentos a assinalar: A voz de Daniela Costa no refrão de The Dark Hour; o solo de guitarra acústica e os coros em Slow Down; o diálogo das guitarras e o baixo “refilão” no final de Douro Blues; o piano e a guitarra acústica (que faz uma “caminha sarcástica”) em My Delightful Friend; o solo de guitarra acústica em Hard Blow; Fernando Nascimento em The Same Old Song. E mais uns quantos, mas a prosa já vai longa e já escrevi para aí o triplo do que planeei, que nisto dos blogues, a coisa tem que se ler rápido.
E é verdade. Também eu deixei passar uns abraços pelo caminho. Todos deixamos, penso eu!
Um dos melhores álbuns que ouvi nos últimos tempos.
Rhiannon Giddens, Amythyst Kiah, Leyla McCalla, e Allison Russell são todas grandes artistas em nome próprio. Neste projeto juntam forças para dar vida a canções de luta, resistência e esperança protagonizadas por mulheres, inspiradas em histórias dos séculos XVII, XVIII e XIX. Histórias de escravatura, racismo e misoginia vistas da perspectiva da mulher negra.
De um ponto de vista estritamente musical, o álbum é daqueles que só se consegue largar quando acaba, muitas vezes apenas para o pôr de novo no início.
Aqui só há boa música, boas cantoras, boas instrumentistas, uma produção límpida, apenas com o que precisa de lá estar.
Uma fantástica edição com o selo da Smithsonian Folkways.
Faz hoje 50 anos. Precisamente no dia 1 de Junho de 1967 foi editado o álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (conhecidos em sua casa como The Beatles). É considerado pela revista Rolling Stone como the most important rock & roll album ever made. Para além deste, os Beatles têm, na referida lista, mais três álbuns nos dez primeiros lugares: Revolver (1966 - 3º), Rubber Soul (1965 - 5º) e The Beatles (Álbum branco - 1968 - 10º).
Não sei se é o melhor álbum de sempre (não os ouvi todos como devem calcular), mas não me custa aceitar que seja um dos mais importantes na história desta coisa a que chamam "Pop-rock" e que engloba coisas tão diferentes e difíceis de comparar entre si. Marca sem dúvida uma mudança na maneira de gravar, produzir e compor música, no que respeita a este tipo de música, embora já antes houvesse vários sinais de que essa mudança estava a acontecer, nomeadamente em Revolver, dos mesmos Beatles ou em Pet Sounds, dos Beach Boys (ambos de 1966), para nomear apenas os mais falados.
Ora, não sendo eu, por natureza, de grandes comemorações, em vez de deitar aqui uns foguetes ou fazer uma qualquer pirueta espectacular para vos deixar de boca aberta de espanto, resolvi assinalar a data de maneira simples e, espero eu, útil, deixando-vos ali na página das cifras os acordes de "With A Little Help From My Friends", segunda canção do lado A de "Sgt. Pepper's". Está no tom original, para poderem acompanhar em tempo real o desempenho vocal de Ringo Starr, numa das poucas vezes em que teve licença para cantar, durante o tempo de duração da banda.
Não sei quanto mais tempo me sentirei em modo de comemoração, mas pode ser que apareça por ali mais uma ou outra música dos "Quatro de Liverpool". Aceitam-se sugestões, assim eu tenha "estofo" para a coisa. Divirtam-se!
Para comemorar o regresso à escrita, fica aqui o primeiro single do novo disco de Budda Power Blues & Maria João, com concerto de apresentação já no próximo dia 2 de Março, no Pequeno Auditório do CCB.
Por acaso acho uma certa piada. De repente ficou toda a gente preocupada com as masters. O José Afonso morreu há 30 anos. O material da Orfeu foi vendido pelo Arnaldo Trindade nos anos 80 à Movieplay, que ficou também com o que sobrou da Rádio Triunfo. Não se trata só das masters do José Afonso, mas da maioria dos "cantautores" (como se diz agora) de antes do 25 de Abril e de muita da música portuguesa dos anos 70 e do "boom" do rock no início dos anos 80. A Movieplay enfrentou, durante anos, problemas financeiros, que toda a gente conhecia (até porque, segundo parece, o dono devia dinheiro a toda a gente). Durante todo este tempo ouvi falar várias vezes do problemas das masters do Arnaldo Trindade, mas nunca vi nenhum organismo chegar-se à frente para as adquirir ou, sequer, para as declarar património de interesse público, para que não pudessem ser vendidas sem consulta dos organismos oficiais. Agora fala-se que poderão ter sido vendidas para o estrangeiro? Olha, deixem-se de hipocrisia e aguentem-se. Tivessem trabalhado (sim, isto inclui os jornalistas que andam a "levantar a lebre").