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domingo, 10 de março de 2024

Festival RTP da canção - A final. Afinal...

Ora vamos então às conclusões de mais um ano de Festival da Canção. Pouco para dizer mas tanto para fazer.


(Imagem RTP)
E pronto, lá se escolheu "uma canção para a Europa", como se dizia antigamente.

Olhando para a lista de canções que acabaram por chegar à final, a primeira coisa que salta à vista é que as pretensões de "inclusão" que a RTP tinha originalmente na escolha de compositores a convidar saíram um bocado furadas. Tirando a canção do Leo Middea, cantada em português do Brasil, pouco se viu da intenção de ter representadas na final as várias dimensões da população do país, intento que tinha sido bem mais conseguido em anos anteriores.

Tirando uma ou outra tentativa de fazer diferente (mais até em termos visuais do que musicais), as canções finalistas andaram muito pelo normalzinho do festival, representando muito pouco do que os jovens portugueses ouvem hoje em dia (tirando os casos das representantes da "moda das cantautoras"). Desta vez a dimensão kizomba/auto-tuning não esteve representada, apesar de sabermos que é o que mais se ouve por aí (basta andar de transportes públicos por Lisboa ou Porto, por exemplo).

No que respeita à qualidade das canções, na minha opinião as melhores ficaram nas semi-finais, como escrevi anteriormente (Mila Dores, Mela e Maria João) e, dentro do que o público podia escolher, acabou por ganhar a melhor cantora, o que já não é mau. Devo aliás dizer que, no que toca às vozes, os intérpretes a quem a semi-final não tinha corrido muito bem, em geral melhoraram na final. Pessoalmente, não consigo destacar uma canção finalista que, para mim, fosse melhor do que as outras. Claro que, quando falo das minhas preferências que ficaram pelo caminho, acabo sempre por ouvir a resposta de que também não eram canções para "se levar à Eurovisão" e que este "Grito" da Iolanda terá muito boas hipóteses de ficar bem classificado. Como sabem, nunca levo muito em conta esta coisa do "lá para fora" (Estamos juntos, MEC!), mas lembro-me sempre que ouvi o mesmo quando disse, na primeira semi-final de 2017, que a melhor canção era a do Salvador Sobral. Penso mesmo que a primeira resposta que me deram foi qualquer coisa do género: "Com aquela canção e aquela roupita de mendigo, não vai a lado nenhum". Não só foi, como voltou e se tornou um dos melhores cantores que tem hoje o país. Não estou muito interessado no lugar em que ficará a Iolanda na Eurovisão, mas ficam os votos de boa sorte.


Bom, despachado o concurso, vamos ao melhor da festa: as atuações ao vivo dos intervalos. É assim como o "halftime concert" dos americanos no "Superbowl", ou seja, o verdadeiro acontecimento da noite. Começou com a Mimicat a mostrar como a coisa fica quando ela tem uma banda a sério em palco e acabou com os The Black Mamba (com Anabela, Mimicat e Tó Cruz) como banda tributo dos Abba. Eh pá, eu não ligo nenhuma aos Abba mas os Mambas tocaram aquilo limpinho, limpinho, mostrando também eles que aquela coisa do solo de guitarra a fingir no "Love is on my side" era para esquecer. Mas o momento da noite foi proporcionado por Filipe Melo, Samuel Úria e convidados com Ana Lua Caiano, Alex D'Alva Teixeira, Luca Argel e Paulo de Carvalho nas vozes. Sim, foi mais um "medley" num intervalo do festival (há sempre um ou dois). Mas foi tudo e só o que uma atuação ao vivo deve ser (único senão: o uso da segunda versão de "Tanto Mar" de Chico Buarque em vez da primeira, mas isto sou eu, que tenho a mania dos pormenores). Esqueçam o medley. Isto é música a sério e é apenas uma exemplo das coisas boas que se fazem por cá e que raramente temos oportunidade de ver na televisão. Vá, se estivermos muito atentos, de vez em quando lá detetamos umas pérolas que nos passam pelas madrugadas. Estes momentos fazem-me sempre pensar: para quê tanto concurso de talento e festivais e galas de mais de três horas se temos tantos e tão bons músicos, bandas, orquestras que podemos mostrar às pessoas? E por falar em bons músicos e programas de televisão, por favor acabem com o "Estrelas ao sábado". Pode ser?

Para terminar, quero só dizer que, em relação ao Festival da Eurovisão, subscrevo o conteúdo da carta enviada à RTP por um grupo de artistas solicitando que a estação de televisão portuguesa exija à UER a exclusão da representação de Israel como sanção contra os crimes de guerra cometidos sobre a população palestiniana de Gaza, assim como se fez, e bem, à Rússia quando da invasão da Ucrânia e que, caso a UER não exclua Israel, que seja a própria RTP a recusar-se a participar no Festival. É certo que em Portugal o Festival da Eurovisão tem uma importância e visibilidade reduzidas, mas é um acontecimento importante na Europa e um palco com visibilidade, onde atitudes de protesto não violento podem e devem ser exercidas. E por aqui me fico quanto ao Festival RTP da Canção 2024.

segunda-feira, 4 de março de 2024

Festival da canção RTP 2024 - Algumas considerações depois da segunda "semi-final"

Comentada a primeira semi-final, tenho obrigatoriamente que comentar a segunda, para a coisa ficar equilibrada. Depois da final também cá virei dizer do que achei.



Claro que não estava à espera que as críticas que fiz em relação à duração e condução da emissão da primeira semi-final tivessem algum efeito na segunda. Tudo está preparado há muito tempo e, no fundo, que interessa a minha opinião numa empresa como a RTP? Certo. Sigamos em frente.

Desta vez passou-se algo com o som. Quase todas as canções foram prejudicadas pelo som das vozes ou, pelo menos, da equalização da voz com a trilha gravada. Uns safaram-se melhor do que outros, como é habitual mas mesmo pessoas com vozes reconhecidas como boas (por exemplo o Buba Espinho) foram prejudicadas pelo fenómeno. A coisa foi melhorando um pouco pelo programa adiante mas nunca ficou perfeita.

O exagerado esforço da "inclusão"

Esta moda dos convites leva a estas coisas. Com tanto politicamente correto, acabamos com uma sessão que inclui coisas parecidas com muita coisa mas que, em muitos casos, acabam por nunca ser exatamente aquilo que supostamente queriam ser. É assim uma espécie de eterna fusão. Eu até gosto de fusões mas algumas aqui parecem um bocadinho "feitas por encomenda". No caso do Buba Espinho o tempero alentejano teve mão demasiado leve; a canção da Cristina Clara, apesar de interessante, ficou ali a meio entre a Beira Baixa e Cabo Verde; a canção do Huca, apesar de bem intencionada, pareceu-me entregue no sítio errado. Espero que a editem em single e faça o seu caminho normal como boa canção que é, uma vez que não foi apurada para a final. A Maria João é, evidentemente, de outro planeta. Quem gosta do projeto Ogre já conhece o género. Maria João canta como ninguém, João Farinha veste-lhe muito bem a voz com camadas de acústica e eletrónica, mas o Festival da Canção ainda tem que palmilhar umas léguas para ter lugar para ela. Ou então não, o Festival da canção vai continuar como é e nós vamos ter anualmente direito a ouvir pequenas pérolas destas que ficam pelas semi-finais, apesar da qualidade que têm. Depois temos o representante da imigração, o representante da emigração... tanto esforço para tentar incluir, que acaba por parecer tudo um pouco forçado.

No meio de tudo isto temos algumas canções que se integram em estilos mais atuais e mais ouvidos e acabam por ser essas as apuradas para a final. Entre essas, talvez tirasse a do Leo Middea (este estilo Djavan interessava-me moderadamente nos anos 80) e apurasse a da Maria João, só para termos uma final um bocadinho mais interessante. 

Num recado para a produção e para os autores, talvez fosse interessante regravar alguns dos acompanhamentos e ter algum cuidado especial com algumas das entregas vocais. Sei que é possível fazer alterações entre a semi-final e a final e tenho uma secreta esperança de que algumas das canções finalistas venham melhoradas, para bem do espetáculo.

Por fim, mais uma palavrinha sobre os convidados: na semana passada foram os 40 anos dos Delfins, esta semana foram os 50 anos de carreira do Herman... 
Nada contra, mas já repararam na quantidade de músicos de qualidade atuais que têm discos e até projetos novos? Assim como quem não quer a coisa, sugeria o Pedro Jóia, os Cara de Espelho, o José Peixoto, os Capitão Fausto ou o Zambujo com o Yamandu Costa e... por acaso já ouviram o disco da Milhanas? 'Tou só a dizer, ok?

Ah! E se puderem encurtar um bocadinho a coisa, o pessoal agradecia. Obrigado



terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Festival da canção RTP 2024 - Algumas considerações depois da primeira "semi-final"

Quase todos os anos vejo o Festival da Canção da RTP, quase todos os anos escrevo alguma coisa sobre o assunto e, sempre que o faço, a maior parte dos meus amigos me fazem a seguinte pergunta: "Eh pá, tu ainda vês essa chachada?"


Sim, vejo. E porque é que vejo? Primeiro, porque é música nova feita de propósito para a ocasião por um grupo de compositores, alguns convidados, outros apurados por concurso, mas principalmente com a vantagem de não serem escolhidos pelo habitual grupo que seleciona os momentos musicais dos programas de fim de semana ou das manhãs e tardes televisivas.

Sim, apanha-se muita música fraquinha e mal cantada mas também aparecem algumas boas surpresas que, se não ganharem, o mais certo é nunca mais as ouvirmos em lado nenhum.

Quanto a esta "semi-final" em particular, tenho algumas considerações a fazer. O mais certo é muito pouca a gente as ler, como tudo o que escrevo neste blogue, mas sempre fica por aqui uma opinião que tem pelo menos a vantagem de ser isenta de todo e qualquer pré-engajamento com algum dos concorrentes. Por outro lado, preciso de me manter ocupado e escrever é sempre uma maneira de combater a estupidificação. Sendo assim, leiam ou não, aqui fica:

1. A duração do programa de televisão.

Quem me conhece sabe da minha aversão à extremamente longa duração dos programas de talentos que passam na televisão. Ora, quando se trata de uma suposta semi-final dum concurso para escolher uma canção para levar a um outro concurso, este internacional, parece-me que três horas e meia de duração é um exagero bastante tormentoso para quem vê, até porque há apenas dez canções a concurso em cada semi-final. Ora, o tempo de emissão de dez canções é, no máximo, com apresentações e considerações, de 50 minutos. Assim sendo, tirando, vá lá, meia hora de música adicional (desta vez uma sentida homenagem a Sara Tavares e uma estranha celebração da carreira dos Delfins, que poderia ter sido feita em qualquer outro lado), ficam pelo menos duas horas de pura PALHA. Não se justifica tanta conversa, tanto vestido, tanto apresentador, tanta entrevista... eh pá. é só uma semi-final dum concurso de canções, certo? Não. A verdadeira razão de tanto tempo de emissão, tanto nos festivais como nos programas de talentos chama-se televoto. É ele, juntamente com toda a publicidade apresentada, que paga os programas. E quanto mais demorar, mais o pessoal vai votando e euro aqui... euro ali... enche a RTP o papo.

2. Os acompanhamentos em playback.

Nos antigos festivais da canção, as músicas eram todas tocadas ao vivo com orquestra e cantadas em direto. Nos dias de hoje, o que se passa é que este festival não é mais do que um concurso para escolher uma canção que vai representar a RTP (sim, a RTP, não Portugal, percebem?) num concurso internacional de canções representantes de televisões (não países, ok?) que são membros de uma coisa chamada União Europeia de Radiodifusão, também conhecida vulgarmente como Eurovisão. Ora, nesse concurso internacional chamado European Song Contest (Em português Festival da Eurovisão), todos os acompanhamentos musicais são pré-gravados, o que mais ou menos obriga a que aconteça o mesmo no concurso português (embora entre um e o outro se possam fazer algumas alterações, mas isso não interessa para aqui). Por isso, se virem alguém a fazer um grande solo de guitarra ou de piano, esqueçam. Só as vozes são ao vivo. E isso leva-nos a outro tipo de consideração.

3. As (por vezes) desafinações dos cantores

É tradicional dizer-se do Festival da canção que o pessoal se farta de desafinar. E é verdade. Nesta semi-final voltou a acontecer com alguns concorrentes. Uns desafinaram, outros não conseguiram mostrar toda a voz que, eventualmente tinham e outros estiveram mesmo muito bem. Porque é que isto acontece? Não me parece que, à partida, se mande para um concurso destes alguém que não sabe cantar. Muitas vezes é a coreografia, a falta de tempo para preparar a voz, a falta de hábito de ir a palco cantar uma única canção, os nervos, sei lá. Desta vez as mais prejudicadas foram a Mela (eliminada), que não conseguiu chegar com a voz onde ela sabia que chegava (o vídeo de apresentação estava perfeito) e a cantora dos Perpétua (apurados), talvez por efeito da coreografia. A Mila Dores que, quanto a mim, tinha a melhor canção (eliminada), não conseguiu colocar a voz que a canção precisava, principalmente no refrão. Do outro lado da coisa, há que destacar a Iolanda, sem dúvida a melhor intérprete da noite, numa canção de que não gosto, A jovem Rita Rocha que, embora cantando um estilo do qual estou bastante cansado devido à profusão de intérpretes do género no ativo teve uma excelente prestação vocal e o Noble, embora com uma canção terrível a fazer lembrar as baladas pop dos aos 80, que se saiu bastante bem, embora tenha falhado os falsetes todos.

4. As canções

Durante o processo fui comentando em círculos mais ou menos privados o que achava de cada canção e intérprete mas, depois das primeiras dez canções a concurso, a impressão geral é de que mais de metade destas canções pouco mais serão ouvidas a partir daqui. Para mim, as melhores eram "Água" da Mela e "Afia a Língua" de Mila Dores e Filipe Sambado. Ambas eliminadas. As outras, entre duas ou três de pop anacrónico, outras duas saídas desta nova onda de cantautoras da qual estou nitidamente a precisar de descanso, outras duas mais modernas mas pouco interessantes e a do Bispo... não gostei. 

5. As apuradas

Rezam os registos que as canções apuradas pelo juri, juntamente com o público são as de Nena, Rita Rocha, Perpétua, João Borsch e Iolanda. Depois a RTP voltou a abrir as votações para faturar mais um pouco e o público escolheu a canção do Noble. 

Poucas vezes acerto ou concordo com as escolhas, principalmente as do público, o cúmulo disso foi quando afirmei que a canção de Salvador Sobral era a melhor da primeira semi-final e levei na cabeça em todo o lado pela pouca hipótese que tinha "lá fora" por ser tão pouco "festivaleira". Eu por mim, estou como o Miguel Esteves Cardoso disse este sábado: "Fazer boa figura cá! Depois os estrangeiros lá..."

segunda-feira, 4 de março de 2019

Conan Osiris: Nem original, nem desafiador de mentalidades, nem sequer bom. E ainda por cima, previsível.


Navegando pelo meio de ódios e polémicas que incluíram todo um universo de razões e questões mal resolvidas na opinião pública do país, das quais nenhuma tinha a ver com boa ou má música, Conan Osiris acabou por vencer por isso mesmo: por ser polémico, por mobilizar algumas faixas da população (algumas delas as que mais se interessam pelo Festival da Eurovisão), por sofrer o ódio das redes sociais e (trunfo fundamantal na Eurovisão, na cabeça de muitos), por ter um visual "diferente".




Algumas pessoas continuam a pensar que o Festival RTP da Canção é um concurso para escolher a melhor música do país. Não é. Trata-se de escolher a música com mais probabilidades de ficar bem classificada na Eurovisão e aí, todos o sabemos, a qualidade musical não tem grande importância.

Entre as razões esgrimidas para justificar a escolha de Conan Osiris, estavam a originalidade, a inovação do seu estilo de música e a sua coragem de desafiar preconceitos. Muita gente o comparou a António Variações, a Carlos Paião ou Paulo Bragança. Muita gente exaltou as qualidades de inovação musical do estilo, mas ninguém, que eu ouvisse ou lesse, disse que o rapaz canta bem. Ora então, vamos lá dissecar isto:

Originalidade: Parece que esta espécie de "fado orientalizante" é uma invenção de Conan Osiris. Será? Não, não é. Em 1987 saiu em Portugal um maxi-single em vinil, cantado por Anamar e chamado "Amar por Amar". Nesse disco participavam António Emiliano, Nuno Rebelo, Emanuel Ramalho e Pedro Caldeira Cabral. Na altura falou-se bastante deste conceito em que se misturava o fado com um ambiente orientalizante, mas a carreira de Anamar não foi muito mais longe e a coisa ficou-se por aí.



Ao mesmo tempo, o próprio Nuno Rebelo, integrado no grupo Mler Ife Dada, completava o álbum "Coisas que fascinam" em que, de um outro modo, visitava os mesmos sons do Norte de África, cuja "descoberta" parece ser hoje, mais de 30 anos depois, atribuída a Conan Osíris.



Salientemos ainda o facto de, há 30 anos, tudo isto ser feito em estúdio, com instrumentos musicais tocados por bons músicos e não à base de samples sacados da internet e tratados num modulador de efeitos para criar uma "cama sonora" por cima da qual se pode recitar uma letra mal cantada, mas com um "gingar" afadistado. Há aqui uma diferença. E não é ligeira.

Desafiador de mentalidades: A comparação a António Variações tem, julgo eu, uma base fundamentalmente visual. Mas na verdade Osiris não acrescenta muito, ou mesmo nada, ao que Variações fez nesta área. A grande diferença é que António Variações tinha, de facto, coisas para dizer e uma maneira criativa de o fazer. Osiris, por enquanto, não disse grande coisa. Em termos musicais, nem um nem o outro são grande coisa, na minha opinião. Poderemos discutir esse aspecto do Variações, mas não no âmbito deste texto. Quanto ao Paulo Bragança, consigo perceber as referências longínquas. O Carlos Paião... não sei onde é que foram buscar a ideia, de tão absurda que é.

Concluíndo: musicalmente, Conan Osiris não é, por enquanto grande coisa, tal como António Varições não era (podem comprová-lo no vídeo abaixo), mas pode vir a ser. É um tipo com alguma visão e, bem ajudado, como foi Variações, pode vir a fazer boa música.



Sim, sei que é muito texto para um assunto tão pouco importante. Mas prefiro dar a minha opinião aqui do que ser enxovalhado e ofendido aí pelas redes sociais, pelo delito de ter uma opinião diferente da maioria.

quarta-feira, 15 de março de 2017

"Para Perto" (Samuel Úria e Golden Slumbers) - os acordes.

Golden Slumbers

 Bom... Já que estou com a mão na massa...


Das canções que participaram no Festival da Canção 2017 há várias que não ficarão para a posteridade. Umas porque não eram boas e foram justamente eliminadas na semifinal; outras até mereciam ter passado à final mas o júri e o público não as escolheram; outras ainda, fossem melhores ou piores, não passaram à final porque algo correu mal na prestação da semifinal (arranjos, som de palco, interpretação...).

No caso da canção "Para Perto", composta por Samuel Úria para a voz das Golden Slumbers, a interpretação foi claramente prejudicada por alguma falta de experiência do duo de cantoras ao cantar em português (costumam fazê-lo em inglês) sobre uma trilha gravada em televisão. A canção em si, não sendo excepcional, era até bastante boa, se nos concentrarmos exclusivamente na letra, na música e no arranjo. A mim agrada-me também o estilo e ambiente "folky" a que o Samuel Úria nos vem habituando de há uns anos para cá.

Samuel Úria
O facto de não ter chegado à final vai certamente provocar o rápido esquecimento de "Para Perto". Por ter sido eliminada deixará de ser falada e nem sequer aparecerá futuramente nas repetições da RTP Memória. Não sei se o Samuel Úria ou as Golden Slumbers estarão a pensar incluí-la nos seus próximos álbuns, ou mesmo se estarão a considerar cantá-la ao vivo nos seus concertos. Por mim, acho que não deveriam deixar que se perca. Para isso, decidi dar a minha pequena contribuição, tirando os acordes e publicando-os aqui, na página das "Cifras".

Para já, serei pelo menos o primeiro blogue a fazê-lo, se não mesmo o único, caso a dura possibilidade de esquecimento se confirme. Nesse caso, estarei mesmo a fazer, de alguma forma, um serviço público. Afinal de contas, quem se lembra ainda da canção "Olá Cega Rega", que Paulo de Carvalho escreveu para Lena D'Água levar ao festival em 1980 e que, tal como esta, não passou da semifinal? Se calhar nem a própria!...


segunda-feira, 6 de março de 2017

O "renovado" Festival RTP da Canção

Depois de decorridas as longas e penosas quatro horas que demorou a "final" do Festival RTP da Canção 2017 tenho, como pessoa interessada por música portuguesa, que tecer algumas considerações sobre todo o processo a que alguns decidiram chamar a Renovação do Festival da Canção.


O convite aos novos compositores e a escolha dos intérpretes:


Quando comecei a ver aparecer a lista de compositores convidados pensei: sim, há aqui algo de diferente nos nomes, mas o processo é o mesmo. Compositores convidados pela produção para apresentarem músicas a concurso. Analisando mais ao pormenor, noto que, dos 16 (soube mais tarde que tinha havido convites a outros, que recusaram), apenas 11 eram realmente novos e que, desses 11, apenas sete ou oito se me afiguravam como podendo fazer algo que significasse uma verdadeira mudança no estilo musical do Festival. Ou seja, metade. Sensivelmente o número de finalistas. Arriscado.
Veio a lista de intérpretes e percebi que, em metade dos casos, a aposta continuava a ser nos cantores saídos dos concursos de talentos, no resto em estreantes, com três "repetentes". Se não há aqui nada de mau à partida, a tal "renovação de conceitos" já se esfuma um pouco.


A promoção, formato e apresentação do "novo" festival:


Aqui começou a coisa a correr mal. Tudo se passava como nos anos anteriores: a promoção do evento como um grande acontecimento (que não é), o anúncio da escolha de "uma canção para a Europa" (desta vez é que ganhamos a Eurovisão), a mobilização de tudo o que é apresentador com supostas piadas para dizer e um desfiar de "palha" sem qualquer interesse para quem se que centrar apenas no que devia importar: a música. Correu mal nas semifinais, culminou na final com uma longa sessão de quatro horas, já que havia por força que juntar o Festival com a comemoração dos 60 Anos da RTP. Uma longa e penosa transmissão com os já costumeiros "flash backs" e ainda mais "medleys" de temas de anos passados do que era costume (afinal 60 anos é um número "redondo"), onde uma banda de fantásticos músicos (o núcleo dos Cais Sodré Funk Connection) se viu reduzida a debitar uns fragmentos de algumas das canções que já ouvimos mais de uma centena de vezes. Já não há paciência para este estilo. Se era para renovar, além de não o fazerem, ainda pioraram o que estava.


As Canções:


Chegados à primeira semifinal, cedo se viu que, também neste campo, o panorama não era maravilhoso, embora se tenham notado algumas melhoras em relação a anos anteriores, mas não tantas como seria de esperar, atendendo a alguns dos nomes presentes. Das oito canções a concurso, só três representavam reais mudanças em relação ao formato usual de "música" de festival e destas, a duas a interpretação não correu nada bem. Na minha opinião, salvou-se do lote a canção "Amar pelos dois" composta por Luísa Sobral e cantada pelo seu irmão Salvador.
Na segunda semifinal, o panorama foi um pouco diferente: se havia mais canções diferentes do formato habitual, também é verdade que não eram, em geral, muito boas. Destaco aqui (porque merece) a prestação de Lena D'Água. Não entrando aqui na discussão de alguns comentários que li, tenho a dizer que, aos 60 anos, deve haver muito pouca gente neste país com a voz tão jovem e clara como Lena D'Água a tem neste momento. Tudo o resto que se possa ter dito tem muito pouco interesse. Ainda uma menção à canção "Gente Bestial" da dupla "Virgem Suta", embora não propriamente novidade no seu formato, a fazer lembrar algumas boas memórias bem dispostas de outrora como as prestações dos SARL ou Trabalhadores do Comércio, por exemplo.
Não vou entrar mais a fundo na prestação dos intérpretes por achar que alguns foram traídos pela inexperiência, outros pela "falta de canção".

O Vencedor:


Se em muitas coisas nada mudou,  a grande novidade é o facto de ter ganho aquela que era talvez a melhor canção, cantada por um dos melhores intérpretes. Isto sim, é diferente do habitual e um bom sinal de mudança, apesar de parte da opinião pública continuar a apregoar "uma canção festivaleira para a Eurovisão". Esta justiça no resultado final, deve-se certamente à introdução de um júri regional, composto (na sua maioria) por músicos ou gente de alguma maneira ligada à música que, com a sua votação, impediu a vitória do mais votado pelo público (a tal canção "festivaleira" e muito, muito mal interpretada).


Conclusão:


Para além do pequeno (grande) sinal de esperança de que falei acima, embora se tenha notado algum esforço no que respeita aos nomes dos compositores convidados para este Festival, a verdade é que, nalguns casos, esses compositores sofreram da falta de experiência nestas andanças e, mais importante, a RTP não esteve verdadeiramente disposta a mudar o formato de todo o resto do programa, conseguindo ainda piorar o que já era mau. Espero que tenha sido apenas um primeiro ensaio de uma verdadeira renovação a efectuar em anos próximos. A não ser assim, continuaremos a ter um evento de canções que não reflecte verdadeiramente a música que se faz no país, antes serve de apresentação de produtos eventualmente passíveis de obter uma boa classificação num festival de má música, organizado por uma Eurovisão tão decadente como a Europa que diz representar. E assim não vale a pena.