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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Plágio ou versão? Somos parvos, ou quê?

Já aqui tenho abordado o assunto. Parece-me óbvio que são coisas diferentes. Plágio é uma cópia (supostamente dissimulada) de algo já existente (seja do que for, não só de música, claro) em que não é reconhecido o verdadeiro autor (assim como os seus direitos), enquanto uma versão (no caso da música) se trata de uma reinterpretação de uma obra já existente, com mais ou menos alterações, seja na letra, seja na música, misturando, truncando, samplando, fazendo mortais à rectaguarda ou jogando de calcanhar como o Falcão, mas sempre atribuindo a autoria ao seu verdadeiro dono e pagando os respectivos direitos. Até aqui estamos entendidos.

Onde a coisa muda de figura é quando nos chega aos ouvidos algo que é sem qualquer espécie de dúvida uma versão mas que, por manifesta estupidez (ou má fé) de quem a faz, acaba por se tornar num caso de plágio evidente.

Do que é que eu estou afinal a falar?
Ora bem, estava eu a ver televisão há um bocado quando, como já vai sendo habitual na nossa televisão, deparo com imagens de um concerto do Tony Carreira, imagens essas em que ele cantava esta canção, de seu nome "Nas horas de dor":



Nem sequer foi preciso um décimo da minha capacidade auditiva para chegar imediatamente à conclusão de que estava na presença duma versão de uma música country chamada "City of New Orleans", de 1971, cujo autor se chama Steve Goodman e que podem ouvir abaixo:



Ora esta canção tem tido muitas versões, desde a primeira do John Denver, passando pela do Arlo Guthrie (e que faz parte da minha BSO) e por muitas outras de outros nomes, alguns obscuros mas outros muito conhecidos como por exemplo Chet Atkins, Joe Dassin, Johnny Cash, Jerry Reed, Judy Collins ou Willie Nelson, que podem ver a seguir com a amiga Sheryl Crow:



(não liguem às letrinhas que vão passando. É publicidade do "uploader")

Até aqui tudo certo, não tem mal nenhum fazer versões de músicas conhecidas. Todos os grandes músicos as fazem e todos nós gostamos de ouvir de que maneira as canções vão sendo reinterpretadas através dos tempos. De umas versões gostamos, de outras nem por isso mas essa já é outra conversa.

Ora o que motiva a rara inserção de uma música cantada pelo Tony Carreira neste blogue é justamente o facto de, neste caso, as coisas não se terem passado de maneira nada normal. Se é evidente que a letra da canção é diferente do original (e não uma simples tradução), também o não é menos que a música é de facto a de "City of New Orleans" de Steve Goodman. Ora, o que aparece nos créditos do disco do Tony é que a letra é do próprio Tony Carreira mas que a música é de um tal M. David (?). Pior ainda, no registo existente na SPA, a canção aparece da seguinte maneira:

Título: "Nas horas de dor"
Género: Indefenido (qué??? bem, mais country que isto é vaqueiro)
Autor: Tony Carreira
Categoria: Compositor / autor

Não percebo muito bem o que é que se pretende com isto. Se era não pagar os direitos de autor, com uma canção tão conhecida como esta só podiam estar à espera do desastre ou então pensavam que em Portugal ninguém percebia nada de música (e a julgar pela quantidade de gente que vai aos concertos do senhor até convenhamos que tinham muitas razões para pensar isso, não acham?).

Todos nos habituámos a ouvir, por exemplo, o Marco Paulo cantar versões de canções francesas, espanholas ou italianas. Segundo parece (e eu conheço alguns casos) os créditos vinham sempre atribuídos aos autores originais, como é suposto ser feito. Se Tony Carreira (ou outro qualquer, seja ele quem for) acha que pode arriscar não pagar direitos a quem eles são devidos, também não se poderá queixar quando tiver que pagar as indemnizações aos donos dos direitos dos originais que usurpou.

Tenho falado muito por aqui de pirataria. Não quis deixar passar sem menção a pirataria que é feita pelos próprios artistas, que supostamente seriam os primeiros a zelar pelos direitos de autor mas que, com acções destas, perdem todo direito de pedir ao público que se abstenha de copiar ou descarregar músicas sem licença.

Note-se ainda que falei do Tony Carreira porque era ele que estava a cantar uma canção que conheço (e até gosto) e porque dei com esta informação através duma pesquisa muito rápida. Foi ele, como podia ter sido outro qualquer. Tenho consciência de que haverá muito mais casos com muitos outros músicos, mas não tenho tempo nem paciência para esse tipo de pesquisas. De outros casos que cheguem ao meu conhecimento, logo verei se vale a pena falar aqui. Em todos eles, os lesados que se mexam.


Já agora, e só para minha recordação (e dos outros todos que também estiveram em Cascais no concerto de comemoração dos dez anos do Festival de Woodstock - em 1979, claro), aqui fica a interpretação do Arlo Guthrie de "City of New Orleans" durante a digressão que passou por cá, com o grupo Shenandoah:





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