Sou capaz de me esquecer de coisas que me pediram há minutos. Parece que é normal, não me preocupa minimamente.
Da mesma maneira sou capaz de me lembrar de um monte de coisas de que já ninguém tem memória, ao ponto de me surpreender a mim próprio e irritar os meus amigos. Não tenho culpa. É assim que sou e às vezes até tem mesmo bastante piada.
Como hoje.
Andava eu pelo "tubo" como de costume e "tropecei" num vídeo com aspecto "idoso". O nome da música e do intérprete não me diziam absolutamente nada e só "entrei" porque estava em modo "recordação" e aquilo parecia mesmo velho. Menos de um minuto depois toda a melodia e letra desfilavam livres e sem erros pelo meu cérebro ilustrados por uma muito agradável imagem... da piscina do Campo Grande.
Andava eu pelo Myspace à procura de saber mais um bocadinho sobre a música que se faz em Portugal, quando dei de caras com um dueto dos EZ Special com o Paulo Gonzo que faz parte do último álbum dos primeiros. Até estava um bocado distraído a fazer outras coisas enquanto ouvia, quando algo me fez dar atenção à canção: a letra do refrão. Eu conhecia muito bem aquilo, mas noutra língua (foi a primeira vez que reparei que ouço música com tradução automática, será grave?). Era um facto! A letra do refrão era uma tradução quase literal do Lookin' For A Love do Neil Young (que devem estar a ouvir agora). Ora vejam (chamo a atenção para as partes a "negrito"):
Segredos (Com Paulo Gonzo) Ez Special
Eu procuro um amor Que ainda não encontrei Diferente de todos que amei Nos seu olhos quero descobrir Uma razão para viver
E as feridas desta vida Eu quero esquecer Pode ser que eu a encontre Numa fila de cinema Numa esquina Ou numa mesa de um bar
Procuro um amor que seja bom para mim Vou procurar Eu vou até ao fim E eu vou trata-la bem Para que ela não tenha medo quando começar A conhecer os meus segredos
Eu procuro um amor Uma razão para viver E as feridas desta vida Eu quero esquecer Pode ser que eu gagueje Sem saber o que falar Mas disfarço e não saio sem ela de lá
Procuro um amor que seja bom para mim Vou procurar Eu vou até ao fim E eu vou trata-la bem Para que ela não tenha medo Quando começar A conhecer os meus segredos
Lookin' For A Love Neil Young
I've been looking for a lover But I haven't met her yet She'll be nothing like I pictured her to be In her eyes I will discover Another reason why I want to live and make the best of what I see.
Where the sun hits the water And the mountains meet the sand There's a beach that I walk along sometimes And maybe there I'll meet her And we'll start to say 'hello' And never stop to think of any other time.
Looking' for a love that's right for me I don't know how long it's going to be But I hope I treat her kind And don't mess with her mind When she starts to see the darker side of me.
Ora temos uma estrofe e um refrão traduzidos quase à letra e outra parte diferente do original, sendo que a música, embora com arranjos e algumas diferenças de acordes também não está assim tão diferente, como verão abaixo.
Investigando mais um pouco, percebi que a canção não é dos EZ Special nem eles a reclamam como tal, declarando-a como uma versão de uma canção de... Roberto Frejat, ex-vocalista da conhecida banda brasileira Barão Vermelho. A canção vem no seu primeiro álbum a solo e, embora não tenha conseguido ver os créditos que estão no álbum, todas as fontes que li a atribuem a Frejat (inclusivé a partitura que aparece no site do cantor), menos um artigo de alguém que descobriu o mesmo que eu: Segredos não é mais nem menos do que uma "versão adaptada" de Lookin' For A Love e Roberto Frejat deveria ter dado parte dos créditos (e, consequentemente, dos direitos) a Neil Young.
Como sabem, não tenho nada contra versões. São até uma parte importante da música que aqui ponho a tocar. Mas se querem tocar música de outros dêem-lhes o que é deles.
Quanto aos EZ Special, é óbvio que estão não têm grande coisa a ver com isto. Foram só apanhados no meio. Segundo dizem, quem tem de pagar os direitos é a editora. É sim senhores, digo eu, mas se calhar devia era ir pagá-los a outra conta.
Procurando os videos, não encontrei para o original do Neil Young mas já o devem ter ouvido em fundo. Quanto aos outros, ei-los:
Então não é que o seleccionador parece que escolheu um "hino" estrangeiro para a selecção? Que pouca vergonha!
A propósito: Para que raio é que a selecção precisa de um hino?
Já há uns tempos que venho comentando que o "povo" português está a ficar (apesar de ter muito menos analfabetos) cada vez mais burro, xenófobo e retrógrado. Todos os dias temos notícias de pseudo-polémicas sobre alegadas ofensas à Portugalidade (seja lá isso o que for) e eu não consigo deixar de pensar que as pessoas se ofendem tanto mais quanto... menos gostam do país e de si próprias.
É certo que as razões da indignação variam um pouco consoante as cabeças e, não falando das que movem os "guardiões" do Orgulho Lusitano porque não merecem sequer espaço por aqui, encontramos preocupações um tanto mais "comezinhas" como a tradicional "falta de oportunidades dadas aos músicos portugueses". O Zé Pedro dos Xutos, por exemplo, mostra-se indignado por se ter escolhido uma canção sem qualquer referência estilística que a ligue à música portuguesa e (de certeza para colmatar essa lacuna) propõe que se dê a tarefa de compor um hino para a selecção aos... Buraka Som Sistema (!?!?!?).
Ora, não sabendo muito bem que raio é um "Hino da selecção" (pensava eu que o hino de Portugal era... o hino de Portugal), partamos do princípio de que se está a falar das músicas que, por qualquer razão, acabam por ficar ligadas a determinados eventos futebolísticos e, por consequência, à participação da equipa portuguesa nos mesmos. Sendo assim, que canções têm ocupado esse lugar? Assim de repente, que isto não é assunto para pesquisas, lembro-me de dois anúncios (suponho que da Galp), um que punha os portugueses a empurrar o autocarro da selecção ao som de... Bob Dylan (???) e outro (que tentaram impingir várias vezes com pouco sucesso) que mandava os jogadores jogarem mais e fazerem menos fita (o tal do "menos ais"). Ainda se tentou, antes do europeu de 2004, fazer "pegar" uma canção gritada pela Dulce Pontes, chamada "Amor a Portugal" e composta por... Enio Morricone (!!!). No fim, quem ganhou as honras de canção do Euro 2004 foi aquela que (dizem que) tinha letra portuguesa, era cantada por uma canadiana e tinha (não sei onde) óbvias raízes portuguesas (talvez nos pais da Nelly). Outras tentativas se fizeram de colar músicas à selecção de futebol mas a única que ficou (e a única que ainda hoje se utiliza sempre) foi o célebre "Vamos lá Cambada", composta por Carlos Paião em puro e verdadeiro estilo "bailarico" (vulgo Pimba), cantada por um personagem bêbado e trapaceiro e a incitar à vitória a qualquer preço "nem que seja à pantufada".
Resumindo e concluindo, considerando a história recente, o meu problema não é escolherem um hino estrangeiro. Para mim o que é grave é mesmo alguém querer escolher um "hino", seja ele qual for, para a selecção nacional de futebol.
Já há uns meses que deixei de conseguir ouvir aquela sanfona pseudo-feel-good-song chamada "I Gotta Feeling" e não consigo imaginar-me mais seis meses a levar com aquilo a toda a hora.
Por favor, acabem com aquele "hino". Acabem com o "hino" mas, por favor... não arranjem mais nenhum. Pode ser?... Sim?
Muito antes de ser conhecido como realizador de filmes, uns milionários, outros de culto, outros milionários de culto, Alan Parker escreveu em 1971 o argumento de um algo obscuro filme (em que ainda fez umas horas de direcção) chamado "Melody" e que eu vi umas duas vezes na televisão, uma em crainça, outra um pouco mais velho.
Pois, dizem os meus amigos (os que nunca ouviram falar dele). E o que é que isso tem de especial, ainda por cima num blogue de música?
Pois é, todos sabemos que o senhor Parker gosta muito de misturar cinema com boa música, como aconteceu por exemplo em The Wall, Birdy, The Commitments ou, vá, Fame e Evita. O que poucos sabem (descobri eu há pouco tempo) é que esse gosto vem desde os primórdios da carreira e começa logo com este "Melody", com uma banda sonora assinada quase na sua totalidade (com a ajuda do arranjador Richard Hewson) pelos Bee Gees (com algumas incursões de valor como "Teach Your Children dos CS&N), no tempo em que os rapazitos ainda não se tinham rendido ao "Disco", às calças apertadinhas (e, consequentemente, ao falsete). A banda sonora inclui mesmo alguns temas que ficaram famosos para os Bee Gees como "To Love Somebody", "First of May" ou "Melody Fair", mas que hoje só gente com bastante "experiência de vida" recorda vagamente.
Deixo-vos com o video de promoção do filme (vulgo trailer) e com o desafio de tentarem encontrar o DVD à venda (isto para quem nunca viu). Se o filme é bom? Da primeira vez gostei muito, da segunda... achei giro.
Alguém se lembra? (Aposto que há pelo menos uma aí que não me vai deixar ficar mal).
Everybody I talk to is ready to leave With the light of the morning They've seen the end coming down long enough to believe That they've heard their last warning Standing alone Each has his own ticket in his hand And as the evening descends I sit thinking 'bout Everyman
Seems like I've always been looking for some other place To get it together Where with a few of my friends I could give up the race And maybe find something better But all my fine dreams Well thought out schemes to gain the motherland Have all eventually come down to waiting for Everyman
Waiting here for Everyman-- Make it on your own if you think you can If you see somewhere to go I understand Waiting here for Everyman-- Don't ask me if he'll show -- baby I don't know
Make it on your own if you think you can Somewhere later on you'll have to take a stand Then you're going to need a hand
Everybody's just waiting to hear from the one Who can give them the answers And lead them back to that place in the warmth of the sun Where sweet childhood still dances Who'll come along And hold out that strong and gentle father's hand? Long ago I heard someone say something 'bout Everyman
Waiting here for Everyman-- Make it on your own if you think you can If you see somewhere to go I understand
I'm not trying to tell you that I've seen the plan Turn and walk away if you think I am-- But don't think too badly of one who's left holding sand He's just another dreamer, dreaming 'bout Everyman
Aqui, Jackson Browne em duo acústico com David Lindley, tal como os ouvi pela primeira vez no álbum Bread & Roses, com mais uns anos passados mas ainda com bom aspecto:
(...) And so we are told this is the golden age And gold is the reason for the wars we wage Though I want to be with you Be with you night and day Nothing changes On New Year's Day
O prédio que albergava o Hot Clube de Portugal foi esta noite gravemente danificado por um incêndio que deflagrou num dos andares de cima, há bastante tempo devoluto. A notícia é triste mas não me espanta tanto como isso. Há muitos anos que o edifício mostrava sinais de ruína e não parecia haver solução à vista. Da mesma maneira, o próprio espaço do Clube, embora com o ambiente a a carga histórica que lhe davam o encanto que ainda tinha, já não era suficiente para um funcionamento eficaz e, em dias de concerto, nem se via nem se ouvia (nem sequer se bebia) nada de jeito.
Falava-se há muito tempo em recuperar o prédio e na cedência do mesmo ao Hot. O estatuto de utilidade pública é mais do que justo e o Clube merece voltar à Praça da Alegria em breve, usufruindo desta vez de um espaço com as dimensões necessárias, não só para o bar e sala de concertos, mas também para a escola, hoje em dia um dos principais centros de formação dos bons músicos que se vão ouvindo por cá, e para um espaço museológico sobre a história do Jazz em Portugal e do próprio Clube, protagonista de um património com mais de 60 anos. Quanto ao dinheiro necessário... é de certeza bem menos do que aquilo que se desperdiça em incompetência todos os anos!
Talvez seja esta a oportunidade que se esperava!
Mais do que chorar desgraças, vamos todos exigir um novo Hot Clube de Portugal. Alinham?
Para ajudar à leitura, fica uma das boas músicas que ouvi ao vivo no Hot:
"3.4.7." Artista: Suite da Terra (Carlos Barretto, Mário Delgado, José Salgueiro) Álbum: Suite da Terra