Dando o exemplo daquilo que propôs, o Belche pôs este ali nos comentários (de alguma maneira eu calculava que estavas a falar deste):
Uma das da vida:
O Lado Errado da Noite
(Jorge Palma)
Santa Apolónia arrotava magotes de gente
do seu pobre ventre inchado, sujo e decadente
quando Amélia desceu da carruagem dura e pegajosa
com o coração danificado e a cabeça em polvorosa
na mala o frasco de 'Bien-Etre' mal vedado
e o caderno dos desabafos todo ensopado
Amélia apresentava todos os sintomas de quem se dirige
ao lado errado da noite
Para trás ficaram uma mãe chorosa e um pai embriagado
o pequeno poço dos desejos todo envenenado
a nódoa do bagaço naquela farda republicana
que a queria levar prá cama todos os fins de semana
e o distinto patrão daquela maldita fundição
a quem era muito mais difícil dizer não
Amélia transportava todas as visões de quem se dirige
ao lado errado da noite
Amélia encontrou Toni numa velha leitaria
entre as bolas de Berlim com creme e o sol que arrefecia
e ele falou-lhe de um presente bom e de um futuro emocionante
e escondeu-lhe tudo o que pudesse parecer decepcionante
mais tarde, no quarto da pensão, chamou-lhe sua mulher
seria ele a orientar o negócio de aluguer
Toni tinha todas as qualidades para ser um rei
no lado errado da noite
Jonas está agarrado ao seu saxofone
a namorada deu-lhe com os pés pelo telefone
e ele encontrou inspiração numa notícia de jornal
acerca de uma mulher que foi levada a tribunal
por ter assassinado uma criança recém-nascida
e o juiz era um homem que prezava muito a vida
e a pena foi agravada por tudo se ter passado
no lado errado da noite
Este poema insere-se numa espécie de hiper-realismo, porque não está escondida em metáforas a história que se pretende contar. No fundo, as palavras escolhidas são ainda mais cruas que a realidade (ex: seria o Toni a orientar o negócio de aluguer, ou o assassinato da criança recém-nascida). O resultado final, que poderia ser absolutamente patético ou de mau gosto, acaba por ser um poema com uma força imensa e que entra no ouvido logo na primeira leitura.
A história é simples: Na primeira e segunda estrofe descreve-se a chegada à cidade e o típico passado de uma candidata a delinquente. Na terceira estrofe, o encontro com o "chulo". Na quarta, está subentendido a gravidez indesejada, o infanticídio e o agravamento da pena, porque o juiz, representante da comunidade, preza muito a "vida", sem obviamente atender às circunstâncias inconscientes que levam uma pessoa a praticar determinado acto.
E já agora, amigo Palma, se nos estiveres a ler, estás à vontade para dizer que não é nada disto. Porque esta de comentar poetas vivos, traz sempre alguns riscos...
(Belche, 14-06-2006)
Por acaso até tenho cá a música mas, se mais alguém quiser participar com um "encapotado" da vida é melhor mandar por mail, juntamente com a musiquita, para o mail que está no meu perfil.
"O Lado Errado da Noite"
Artista: Jorge Palma
Álbum: O Lado Errado da Noite
quinta-feira, 15 de junho de 2006
segunda-feira, 12 de junho de 2006
Nem "Borrow" / "Tomorrow", nem "Sexta-Feira" / "Albufeira" / "Bebedeira"
A propósito de considerações do verde sobre as influências de Fernando Pessoa na letra da música do post anterior, escreveu o "Álvaro de Campelche" o seguinte:
Não competindo obviamente com a mestria de um FP, importa dizer que há muitos bons poemas disfarçados na música pop/rock. Sucede que, sendo a música uma arte mais à flor-da-pele, tende-se normalmente a não ligar muito ao poema.
A esse propóstio, lanço aqui um desafio aos co-blogueiros, na linha das 10 ou 20 músicas das nossas vidas, para uma lista dos 5 poemas "encapotados" das nossas vidas. Neste caso, como o poema tem normalmente um pouco menos de abstracção do que a música (embora o poema seja também em muitos casos apenas um encadeamento estético das palavras), convido a que os "postistas" façam uma apreciação pessoal ao poema. Exemplo: aquela célebre canção "Vamos á lá plaia, ó, ó, ó, ó", o comentador poderia dizer algo do género: "aqui o autor revela uma grande vontade de ir à praia". Seria sem dúvida interessante. Ou não.
Pois, é capaz de ser uma boa ideia.
Não é que as coisas "das nossas vidas" nos venham à cabeça assim de repente mas, como já vimos, da nossa vida acabam por ser um monte delas.
Lendo o comentário, passando pelos poemas "encapotados" e pelo "encadeamento estético de palavras", imediatamente me veio este à cabeça.
Fica aqui, para começar, este exemplo de como o mais simples e circular encadeamento de palavras consegue "desencapotar" um poema.
Sim, porque o tamanho nem sempre conta!
"Parto sem dor"
Artista: Sérgio Godinho
Álbum: Campolide
Parto Sem Dor
(Sérgio Godinho)
E agora eu vou-me embora
e embora a dor
não queira ir já embora
agora eu vou-me embora
e parto sem dor
E parto dentro de momentos
apesar de haver momentos
em que dentro a dor
não parte sem dor
Não competindo obviamente com a mestria de um FP, importa dizer que há muitos bons poemas disfarçados na música pop/rock. Sucede que, sendo a música uma arte mais à flor-da-pele, tende-se normalmente a não ligar muito ao poema.
A esse propóstio, lanço aqui um desafio aos co-blogueiros, na linha das 10 ou 20 músicas das nossas vidas, para uma lista dos 5 poemas "encapotados" das nossas vidas. Neste caso, como o poema tem normalmente um pouco menos de abstracção do que a música (embora o poema seja também em muitos casos apenas um encadeamento estético das palavras), convido a que os "postistas" façam uma apreciação pessoal ao poema. Exemplo: aquela célebre canção "Vamos á lá plaia, ó, ó, ó, ó", o comentador poderia dizer algo do género: "aqui o autor revela uma grande vontade de ir à praia". Seria sem dúvida interessante. Ou não.
Pois, é capaz de ser uma boa ideia.
Não é que as coisas "das nossas vidas" nos venham à cabeça assim de repente mas, como já vimos, da nossa vida acabam por ser um monte delas.
Lendo o comentário, passando pelos poemas "encapotados" e pelo "encadeamento estético de palavras", imediatamente me veio este à cabeça.
Fica aqui, para começar, este exemplo de como o mais simples e circular encadeamento de palavras consegue "desencapotar" um poema.
Sim, porque o tamanho nem sempre conta!
"Parto sem dor"
Artista: Sérgio Godinho
Álbum: Campolide
Parto Sem Dor
(Sérgio Godinho)
E agora eu vou-me embora
e embora a dor
não queira ir já embora
agora eu vou-me embora
e parto sem dor
E parto dentro de momentos
apesar de haver momentos
em que dentro a dor
não parte sem dor
segunda-feira, 5 de junho de 2006
Ai Portugal, Portugal!
Os portugueses passam a maior parte do tempo a dizer mal de Portugal, toda a gente sabe isso!
Compra-se o produto estrangeiro porque é melhor ou mais barato; fala-se mal dos políticos, dos artistas, dos médicos, dos advogados, dos juízes, dos comerciantes, dos industriais, dos patrões, do povo e da própria maneira de se ser português; cusca-se tudo o que é revista de tricas mas as boas famílias são as reais do estrangeiro; fala-se da defesa da música portuguesa mas acha-se mal que os músicos portugueses ganhem dinheiro. Por falar em dinheiro, acha-se escandaloso os que ganham os jogadores de futebol e... e joga a selecção!
É a loucura! Ele é bandeiras à janela, nos automóveis, na secretária lá no trabalho. Ele é gritar "Portugal! Portugal! Portugal!" desde que haja uma câmara ou microfone nas redondezas... até ao jogo. Porque se perdem voltam a ser os chulos do costume. Pois!
O que é que faz uma pessoa correr o país todo para vir fazer uma "bandeira humana"? O que é que faz um português delirar ao ver o baterista dos Red Hot Chili Peppers com a camisola da selecção ou a Anastacia com a bandeira enrolada na cintura? Porque é que os entrevistadores perguntam sempre aos músicos estrangeiros o que acham do público português como se fosse possível algum dizer mal e deixar de vender uns discos? Porque é que uma multidão se junta atrás de um autocarro de jogadores de futebol e faz figuras tão tristes ao ponto de agir como se um aperto de mão, uma foto ou um autógrafo fossem uma benção de um Deus?
Patriotismo?
Não me lixem!
O que se passa é que Portugal acredita tão pouco em si próprio que precisa de caricias permanentes no ego. O que se passa é que os portugueses passaram a ser "media-dependentes" e vão a tudo o que os fizer aparecer na televisão. O que se passa é que somos tão crédulos e ingénuos como invejosos e intriguistas.
O que se passa é o que sempre se passou, afinal: sebastianismo e carneirada. Sem tirar nem pôr!
Eu gosto de futebol, gosto de ver a selecção, e o Mundial é só futebol. Nada mais do que isso.
Com calminha e pés no chão, pode ser?
Obrigado!
"Portugal, Portugal"
Artista: Jorge Palma
Álbum: Acto Contínuo
Portugal, Portugal
Tiveste gente de muita coragem,
E acreditaste na tua mensagem
Foste ganhando terreno
E foste perdendo a memória
Já tinhas meio mundo na mão
Quiseste impôr a tua religião
E acabaste por perder a liberdade
A caminho da glória
Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar
Tiveste muita carta para bater
Quem joga deve aprender a perder
Que a sorte nunca vem só
Quando bate à nossa porta
Esbanjaste muita vida nas apostas
E agora trazes o desgosto às costas
Não se pode estar direito
Quando se tem a espinha torta
Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar
Fizeste cegos de quem olhos tinha
Quiseste pôr toda a gente na linha
Trocaste a alma e o coração
Pela ponta das tuas lanças
Difamaste quem verdades dizia
Confundiste amor com pornografia
E depois perdeste o gosto
De brincar com as tuas crianças
Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar
Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar
sábado, 3 de junho de 2006
Novas leituras
Há blogs novos aí na secção da direita.
Como de costume, uns são sobre música e outros de gente que eu conheço. Destes ainda faltam alguns que, por versarem assuntos mais privados, só publicarei o link se os próprios autores o solicitarem. Outros ainda, apesar de publicados ficam sujeitos à condição de se portarem melhor do que no passado e não arranjarem guerrinhas online que lhes estraguem as amizades (tu sabes de quem é que eu estou a falar, certo?).
Dêem uma olhadela!
Como de costume, uns são sobre música e outros de gente que eu conheço. Destes ainda faltam alguns que, por versarem assuntos mais privados, só publicarei o link se os próprios autores o solicitarem. Outros ainda, apesar de publicados ficam sujeitos à condição de se portarem melhor do que no passado e não arranjarem guerrinhas online que lhes estraguem as amizades (tu sabes de quem é que eu estou a falar, certo?).
Dêem uma olhadela!
sexta-feira, 2 de junho de 2006
É uma "cena cool"!

Estou aqui a ver o Santana na Sic Radical tocando no Rock in Rio!
Ok, todos sabemos que o homem anda a tocar o mesmo solo há quase quarenta anos. Todos gozamos com isso, até o Zappa com a sua "homenagem" "Variations On The Carlos Santana Secret Chord Progression" (o nome era quase maior do que a música).
A verdade é que, depois deste tempo todo, os concertos de Santana ainda são bons e o povo farta-se de abanar o capacete. Claro que as melhores são as antigas, que as novas são para "pagar os melões".
Faccioso, eu? Pois, é que aqui quem escreve sou eu. Contraditório é na caixinha dos comentários.
É que o homem tem um ar tão "bacano" e diverte-se tanto que não se resiste!
Como não abanar, 37 anos depois de Woodstock, ao som de Soul Sacrifice?
Pois eu não sei, e pelos vistos o Sting também não!
É uma "cena cool", não há dúvida!
Chega-lhe, Devadip!
Ganda maluco! (...ou não)
A quem acha que me conhece bem...
...And he never shows his feelings
But the fool on the hill
Sees the sun going down
And the eyes in his head
See the world spinning around.
"The fool on the hill"
Artista: The Beatles
Álbum: The Magical Mistery Tour
...And he never shows his feelings
But the fool on the hill
Sees the sun going down
And the eyes in his head
See the world spinning around.
"The fool on the hill"
Artista: The Beatles
Álbum: The Magical Mistery Tour
quinta-feira, 1 de junho de 2006
Perguntas simples...
- Porque é que são as bandas estrangeiras a fechar os dias de festival quando são as portuguesas que dão os melhores concertos?
Vão-me dizer que o concerto dos "Guns" foi melhor do que o dos Xutos?
E quem são os Soulfly, os Within Temptation (..sss) e os Korn para fazerem os Moonspell tocar antes de anoitecer?
Vão-me dizer que o concerto dos "Guns" foi melhor do que o dos Xutos?
E quem são os Soulfly, os Within Temptation (..sss) e os Korn para fazerem os Moonspell tocar antes de anoitecer?
sexta-feira, 26 de maio de 2006
Para quem não conhece...

... apresento-vos o senhor Jerry Garcia, mais conhecido por ser o vocalista, guitarrista e principal compositor dos Greatful Dead.
Dos longos solos de guitarra dos anos 60, até à música acústica do fim de carreira (ou de vida), Garcia tocou, com ou sem os "Dead", praticamente tudo o que se pode tocar numa guitarra (que no caso dele foram umas boas dezenas).
Aqui o vemos muito bem disposto (parece que era hábito) com uma Gibson acústica de 1939 e, ali a espreitar do lado esquerdo, a ponta do bandolim do David Grisman.
quarta-feira, 24 de maio de 2006
Porque o jantar foi Pizza!

Conta a lenda que estas gravações foram roubadas de casa do Jerry Garcia por um "entregador" de pizzas e andaram por todo lado a ser pirateadas até à data desta edição da editora do David Grisman, a Acoustic Disc.
Ora isto teve alguns efeitos nefastos:
Primeiro, se já não confiava nos "motopizzas" na estrada, deixei de permitir entradas em casa, mesmo que só junto à porta (não que eu tenha gravações minhas que valha a pena roubar, mas é que os CDs até estão perto da porta da rua).
Segundo, uma gravação de 1993 acabou por ser editada com som de qualidade apenas em 2000, 5 anos depois da morte do Jerry Garcia.
Por outro lado, não há a certeza de que, não andando as músicas por aí à solta, o disco seria editado.
Mas foi. E ainda bem!
Juntando o virtuosismo de David Grisman e Tony Rice ao "feeling" (não sei traduzir, está bem?) de Garcia (esse "ganda maluco"), por entre tradicionais folk e bluegrass, passando por versões até "standards" do Jazz (com mais umas conversas pelo meio), sem ensaios nem preparações, este disco é bem mais saboroso do que qualquer Pizza (de encomenda ou caseira).
Para quem gosta, claro!
Aqui fica então a versão de "So What" do Miles Davis, com os erros que teve que ter, e com o prazer que se ouve!
"So What"
Artista: Jerry Garcia, David Grisman & Tony Rice
Álbum: The Pizza Tapes
Blogues amigos (2)

... E também o da Rita, o Gelado de Groselha.
Ilustração e escultura estilo... Rita!
Dêem uma olhadela (aliás, várias). Se quiserem comprar, este é em Leiria!
Pois é assim. Os meus amigos insistem em se espalhar cada vez mais por esse mundo fora e eu sem dinheiro para as visitas...
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